Obstrução intestinal secundária a gossipiboma
Intestinal obstruction secondary to gossypiboma
Edmilson Celso Santos; Julia Fabrini Machado; Pedro Corradi Sander; Bárbara Magalhães Munhoz
Fundação Benjamin Guimarães, Hospital da Baleia, Serviço de Cirurgia Geral, Belo Horizonte, MG, Brasil
Endereço para correspondênciaJulia Fabrini Machado
E-mail: juliafabrini@hotmail.com; juliafabrini13@gmail.com
Resumo
A presença de corpo estranho na cavidade abdominal pode evoluir de forma assintomática ou resultar em complicações graves. Relatamos o caso de um paciente de 76 anos, submetido a gastrectomia subtotal por adenocarcinoma gástrico há quatro anos, que evoluiu com quadro de obstrução intestinal por massa subfrênica que, à laparotomia, mostrou tratar-se de um gossipiboma.
Palavras-chave: Obstrução intestinal. Corpos Estranhos. Laparotomia.
INTRODUÇÃO
A presença de corpo estranho de origem têxtil envolvida por uma reação tecidual é conhecida como gossipiboma1,2 ou textiloma3,4 e foi descrita inicialmente por Wilson, em 18841,3,4. Sua ocorrência varia de um caso a cada 1.000 a 1.500 laparotomias1, podendo acarretar complicações importantes com mortalidade de até 18%2. O tempo de descoberta de corpos estranhos é bastante variável, já tendo sido registrados casos após 40 anos4. As cirurgias que mais envolvem esquecimento de um corpo estranho são as cirurgias digestivas1,3 e ginecológicas1,3, prevalecendo as realizadas em condições de urgência1. A manifestação clínica predominante é a dor abdominal, podendo estar associada a massa palpável, vômitos, perda de peso, distensão abdominal, íleo adinâmico1,3,5 e a suspeita deve ocorrer quando houverem queixas incompatíveis com a evolução normal no pós operatório3.
RELATO DO CASO
Paciente do sexo masculino, 76 anos, apresentava-se com quadro de dor e distensão abdominal, náuseas, vômitos e parada de eliminação de fezes e flatos há sete dias. Na história pregressa, havia sido submetido há quatro anos à gastrectomia subtotal com reconstrução a Billroth II, devido a adenocarcinoma gástrico. Radiografia do abdome mostrou dilatação difusa de alças intestinais, com nível hidroaéreo. Tomografia computadorizada (TC) do abdome evidenciou, além de distensão das alças jejunais com formação de níveis hidroaéreos e moderada quantidade de líquido livre na cavidade abdominal, imagem ovalada, levemente hiperdensa, que apresentava em seu interior material serpentiforme e hiperdenso, de limites bem definidos, com aparente plano de clivagem com o baço, cúpula diafragmática e alças intestinais, medindo cerca de 9 x 5,9 x 5,6cm (Figura 1).

Diante da hipótese de abdome agudo obstrutivo, o paciente foi submetido à laparotomia exploradora. À inspeção da cavidade, verificou-se a presença de alça jejunal distendida, torcida e aderida em hipocôndrio esquerdo, sobre massa de aproximadamente 10 cm de diâmetro, endurecida, epitelizada, também aderida ao pâncreas, hilo esplênico e ângulo esplênico do cólon. O ponto de torção e aderência da alça jejunal distava cerca de 60 cm da anastomose gastro-jejunal e foi responsável pelo quadro de obstrução intestinal apresentado pelo paciente. Foi realizada a ressecção cuidadosa da massa subfrênica, que apresentava conteúdo de origem têxtil semi-encapsulado (Figura 2), além de enterectomia de aproximadamente 30 cm de segmento isquêmico da alça intestinal. O paciente evoluiu bem, tendo recebido alta hospitalar no sétimo dia de pós-operatório.

DISCUSSÃO
Os gossipibomas compõem um cenário prejudicial não só à saúde do paciente, mas também à relação médicopaciente, com suas implicações médicolegais2. Os principais fatores associados a esse tipo de complicação envolvem as cirurgias de emergência, obesidade, hemorragia intra-operatória e mudanças inesperadas no ato cirúrgico1-3. Ao identificar um corpo estranho, é necessário diferenciar os casos em que o mesmo é parte intencional do procedimento cirúrgico, como a espuma de gelatina e a celulose oxidada usadas no auxilio da hemostasia2.
As compressas cirúrgicas são constituídas de algodão, material inerte que não costuma estimular uma reação bioquímica específica5. Nesses casos, a reação orgânica de corpo estranho pode ocorrer de duas formas. A primeira é uma reação inflamatória asséptica crônica e fibrinosa do tecido circundante, resultando em um encapsulamento por formação granulomatosa, na qual o tipo de célula predominante é o macrófago. Nesse tipo de evolução, a maioria dos pacientes pode permanecer assintomática1,3,5. O segundo tipo de reação é a exsudativa, podendo evoluir com formação de abscessos e fístulas, gerando sintomas mais exuberantes, como dor abdominal, peritonite, e até mesmo tentativa do organismo de eliminar o corpo estranho5.
O diagnóstico pode ser desafiador. A suspeita clínica deve estar aliada a estudos de imagem1-3. A radiografia convencional é o método de imagem inicial de investigação, e apresenta sensibilidade acima de 90%, principalmente na presença de marcadores radiopacos2. A ultrassonografia permite identificar gossipibomas radio-transparentes, além de fornecer dados sobre as relações anatômicas. A TC é considerada o método de escolha1,3 permitindo uma avaliação de planos profundos, visão tridimensional da imagem bem como o diagnóstico de complicações2,3.
Dentre as possíveis complicações associadas, estão as aderências, perfuração e obstrução intestinal, peritonite, formação de fístulas, sepse e migração do gossipiboma para o lúmen gastrointestinal ou urinário1,2. A obstrução intestinal pode ocorrer por desenvolvimento de um pseudotumor, aderência extrínseca ou obstrução intrínseca1.
Os gossipibomas representam um problema médico-legal importante, que pode trazer consequências desastrosas para o paciente e é totalmente evitável. Medidas como revisão dos quadrantes abdominais e contagem de material ao final de cada procedimento cirúrgico devem ser sistematicamente realizadas, visando a prevenir esta complicação.
REFERÊNCIAS
1. Silva SM, Sousa JB. Gossipiboma após operação abdominal é situação clínica desafiadora e sério problema médico legal. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2013;26(2):140-3.
2. Chagas Neto FA, Agnollitto PM, Mauad FM, Barreto ARF, Muglia VF, Francisco V, et al. Avaliação por imagem dos gossipibomas abdominais. Radiol Bras. 2012;45(1):53-8.
3. Iglesias AC, Salomão RM. Gossipiboma intra-abdominal: análise de 15 casos. Rev Col Bras Cir. 2007;34(2):105-13.
4. Mafalda LG, Caitano MJC, Magioni FM, Mayer DH, Fonseca CM, Kalil M. Textiloma simulando tumor de colón e mesentério, assintomático durante 40 anos. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2009;22(3):186-7.
5. Carvalho JB, Vinhaes JC. Corpo estranho retido na cavidade abdominal durante onze anos. Rev Col Bras Cir. 2004;31(1):68-70.