Perfuração esofágica por candidíase
Esophageal perforation caused by candidiasis
José Luís Braga Aquino1; TCBC-SP; Marcelo Manzano Said1; Antônio F. de Carvalho Jr1; Fernando Pinheiro Ortega1; Pedro Augusto Costa de Andrade1
1. Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC. Serviço de Cirurgia de Tórax do Hospital e Maternidade Celso Pierro
Endereço para correspondênciaJosé Luís Braga de Aquino
E-mail: jlaquino@sigmanet.com.br
Resumo
Perfuração esofágica secundária à candidíase é uma complicação muito rara. Apresentamos o caso de um paciente com megaesôfago avançado, com desnutrição que causou imunodepressão. Mesmo tratado corretamente o paciente desenvolveu uma perfuração esofágica e sofreu uma esofagectomia de emergência, mas teve evolução fatal.
Palavras-chave: Perfuração Esofágica. Infecção. Candidíase.
INTRODUÇÃO
Infecções esofágicas são pouco frequentes e incidem, geralmente, em pacientes com comprometimento da imunidade, sendo os agentes etiológicos mais comuns: Citomegalovírus, Herpes zoster, Mycobacterium tuberculosis e Candida albicans1,2. Entre os fatores predisponentes para candidíase esofágica destacam-se: antibioticoterapia prolongada, diabetes mellitus, idade avançada, radioterapia e quimioterapia para neoplasias de cabeça e pescoço, etilismo e distúrbios da motilidade esofágica1,2. O megaesôfago avançado destaca-se como alteração, que compromete o estado nutricional e imunológico.
Existem relatos, embora escassos, das complicações da candidíase esofágica como hemorragias, obstrução esofágica devido à fibrose e fístula para a árvore traqueobrônquica1-3. A perfuração esofágica para o mediastino é condição extremamente rara, não relatada na revisão da literatura nacional.
O objetivo deste trabalho é apresentar o caso de um paciente com me-gaesôfago avançado, submetido à esofagectomia de urgência devido à extensa perfuração esofágica secundária a candidíase.
RELATO DO CASO
Homem, 32 anos, portador de megaesôfago avançado idiopático, havia sido submetido há sete anos à cardiomiotomia com fundoplicatura, com melhora da disfagia por um período de cinco anos. Há dois anos evoluiu com recidiva da disfagia e perda de peso. Endoscopia digestiva alta, para programação de esofagectomia evidenciou úlcera profunda no terço médio do esôfago sugestiva de candidíase (Figura 1), confirmada pelo exame anátomo-patológico das biópsias. Introduzido Fluconazol (200mg/dia) via oral com melhora da disfagia. Após um mês realizou-se nova endoscopia digestiva de controle que evidenciou persistência da candidíase e foi introduzido tratamento com Anfotericina B (0,5 mg/kg/dia) endovenosa por 15 dias . Indicada a esofagectomia transmediastinal eletiva e solicitados exames pré-operatórios.

Dez dias depois o paciente procurou o Hospital Celso Pierro da PUC - Campinas com queixa de dor torácica intensa, dispnéia e febre há um dia. Apresentava-se descorado ++/4+, desidratado, dispnéico e com ausência de murmúrio vesicular no hemitórax direito. A tomografia computadorizada de tórax evidenciou grande derrame pleural, com septações e imagem sugestiva de perfuração de terço médio esofágico. Optou-se por drenagem de tórax, com saída de secreção purulenta e conteúdo digestivo. Realizada reposição volêmica e hidroeletrolítica e o paciente foi submetido à toracotomia direita. No ato cirúrgico foi evidenciada perfuração esofágica no terço médio, devido a grande lesão ulcerada tamponada pelo lobo pulmonar inferior direito. Realizada esofagectomia, decorticação pulmonar, esofagostomia e jejunostomia.
No oitavo dia de pós-operatório paciente faleceu em decorrência de choque séptico. O estudo histopatológico da peça cirúrgica evidenciou megaesôfago associado à infecção por cândida (Figura 2).

DISCUSSÃO
A fístula esôfago-mediastinal por perfuração esofágica é uma condição infrequente, associada principalmente a manipulações endoscópicas, cirurgias torácicas ou complicações de trauma4. No entanto pode ocorrer em pacientes imunocomprometidos, consequente à infecção por Herpes zoster, Citomegalovírus e Mycobacterium tuberculosis1,2.
A invasão transmural com perfuração esofágica por candidíase é extremamente rara1,2.
Na literatura inglesa, Gock et al2 relataram quatro pacientes com tal complicação, confirmada histologicamente. Jones et al5 relataram dois casos de perfuração esofágica por Cândida em pacientes imunocomprometidos após transplante renal. Tais dados corroboram com o paciente em estudo, portador de desnutrição e comprometimento imunológico secundários ao megaesôfago que, a despeito do tratamento antifungicida adequado, evoluiu com perfuração esofágica.
A terapêutica nesta situação prioriza intervenção radical, em detrimento do risco de desfecho insatisfatório1,2. Outras condutas são preconizadas: necrosectomia, exclusão esofágica, drenagem das cavidades pleurais e mediastinais6. Devido à escassez na literatura da associação de perfuração esofágica por candidíase em pacientes imunocomprometidos, não há conduta padronizada.
Conclui-se assim, que a perfuração esofágica por candidíase em pacientes imunocomprometidos por megaesôfago avançado é rara, exige terapêutica radical e apresenta elevado potencial de morbidade.
REFERÊNCIAS
1. Kim BW, Cho SH, Rha SE, Choi H, Choi KY, Cha SB, et al. Esophagomediastinal fistula and esophageal stricture as a complication of esophageal candidiasis: a case report. Gastrointest Endosc. 2000;52(6):772-5.
2. Gock M, Schafer M, Perren A, Demartines N, Clavien PA. Fatal esophageal perforation caused by invasive Candidiasis. Ann Thorac Surg. 2005;80(3):1120-2.
3. Garzón D, Barragán F, Martin D, Yeisson A, Abraham A. Perforación esofágica y fístula esofagopleural por Candida albicans: reporte de un caso. Acta Colomb Cuid Intensivo. 2016;16(4):290-3.
4. Aquino JLB, Camargo JGT, Cecchino GN, Pereira DAR, Bento CA, Leandro-Merhi VA. Avaliação da esofagectomia de urgência na perfuração esofágica. Arq Bras Cir Dig. 2014;27(4):247-50.
5. Jones JM, Glass NR, Belzer FO. Fatal candida esophagitis in two diabetics after renal transplantation. Arch Surg. 1982;117(4):499-501.
6. Dean DA, Buchard KW. Surgical perspective on invasive Candida infections. World J Surg. 1998; 22(2): 127-34.