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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 3 - 15 Artigos

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Relato de Caso

Mesotelioma peritoneal sem antecedente de exposição a asbestos: relato de caso

Case report of peritoneal mesothelioma without history of asbestos exposure

Edoardo Cavenago1; Alexandro Cavenago1; Claudio de Saboya David, TCBC-RJ1; Paulo Loures, TCBC-RJ1; Diana Rodriguez2

1. Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Estadual Carlos Chagas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
2. Hospital Nacional Arzobispo Loayza, Lima, Peru

Endereço para correspondência

Alexandro Cavenago
Email: alexandrocavenago@yahoo.com

Resumo

O mesotelioma é uma malignidade incomum originada das células mesoteliais em membranas serosas. O mesotelioma acontece principalmente na pleura, mas pode acontecer no pericárdio, túnica vaginalis, no epitélio ovárico e no peritônio. Embora o mesotelioma pleural seja uma doença relacionada com o asbesto, nosso conhecimento do mesotelioma peritoneal e limitado por sua raridade. Este trabalho descreve um caso de mesotelioma peritoneal sem antecedentes de exposição a asbestos.

Palavras-chave: Mesotelioma. Neoplasias Mesoteliais. Asbestos.

INTRODUÇÃO

O mesotelioma é uma doença incomum, nascida das células mesoteliais em membranas serosas. Foi descrito pela primeira vez por Miller e Wynn, em 1908, e foi chamado de mesotelioma por Adami, em 19091.

Ocasionalmente, o mesotelioma pode acontecer no pericárdio, túnica vaginalis, no epitélio ovárico e no peritônio. O mesotelioma peritoneal representa aproximadamente um terço a um quarto dos mesoteliomas, sendo a maioria deles pleural1-5.

O mesotelioma continua aumentando em frequência e, possivelmente, grande parte dos cirurgiões gerais poderá ser confrontada com pacientes portadores de mesotelioma peritoneal1.

 

RELATO DE CASO

Paciente do sexo masculino, 36 anos, sem exposição a asbestos prévia, foi operado de urgência por abdome agudo inflamatório.

Durante a cirurgia, foi constatado processo inflamatório difuso das alças intestinais, com grande edema e hiperemia, estendendo-se ao meso intestinal e aos epíplons. Evidenciaram-se múltiplos implantes esbranquiçados espalhados pela cavidade. Pelas características macroscópicas do quadro, foi questionada a hipótese de tuberculose intestinal, prosseguindo a investigação através de análise anatomopatológica.

No pós-operatório, foi iniciada prova terapêutica para tuberculose com esquema antimicrobiano de rifampicina, isoniazida e pirazinamida, sendo suspensa após 15 dias devido a vômitos incoercíveis. O estudo anatomopatológico mostrou-se negativo para tuberculose.

Pela impossibilidade de alimentação oral ou enteral, foi instituída nutrição parenteral com melhora do estado geral e nutricional do paciente.

A tomografia computadorizada do abdome revelou espessamento peritoneal, líquido em cavidade e edema importante das alças jejunais, dificultando o trânsito do contraste (Figuras 1 e 2).

 


Figura 1. TC abdome revelando espessamento do peritônio.

 

 


Figura 2. TC abdome evidenciando espessamento jejunal com dificuldade de progressão do contraste.

 

A análise imuno-histoquímica solicitada na biópsia revelou mesotelioma epitelial papilar, com produção de calretinina (Figura 3).

 


Figura 3. Análise imuno-histoquímica com células de mesotelioma peritoneal epitelial papilar com produção de calretinina marcadas.

 

O paciente foi referenciado para um centro especializado, onde foi programada cirurgia citorredutiva, e iniciou a rádio e quimioterapia.

 

DISCUSSÃO

Embora o mesotelioma pleural seja uma doença com uma conhecida relação com o asbesto, o conhecimento da história natural do mesotelioma peritoneal é limitado por sua raridade e apresentação tardia1,2,4.

Alguns fatores de risco para o mesotelioma peritoneal incluem exposição ao asbesto, o vírus simiano 40, irradiação peritoneal, peritonites crônicas, tratamento com dióxido de thorium, corpos estranhos e infecções1,3,4.

Em nosso caso, não encontramos nenhum fator de risco para mesotelioma peritoneal, fato que aumentou a dificuldade de encontrar o diagnostico final, mostrando a necessidade de acrescentar a pesquisa desta doença para sua maior compreensão.

Pacientes com mesotelioma peritoneal geralmente apresentam aumento de volume abdominal, ascite, dor abdominal e perda de peso, sendo a distensão e a dor abdominal os mais frequentes. Em casos graves podem levar à dor grave, obstrução intestinal e emagrecimento. Entretanto, sua apresentação pode ser assintomática até estádios avançados da doença1,3-5.

Nosso caso é um exemplo clínico de abdome agudo inflamatório com obstrução intestinal com apresentação clínica em estágios mais avançado da doença.

A tomografia computadorizada (TC) é o estudo de imagem ideal para o diagnóstico de mesotelioma peritoneal. Mesmo quando achados específicos não são encontrados, a falta de tumor primário e a ausência de nodos linfáticos ou metástases à distância podem ser úteis na diferença de mesotelioma peritoneal com outros tumores gastrointestinais ou ginecológicos1,4.

Na maioria dos casos, o diagnóstico é feito por biópsia obtida por laparotomia ou laparoscopia4. Macroscopicamente, o mesotelioma peritoneal caracteriza-se por tumores brancacentos de consistência e tamanho variáveis, que podem formar placas ou massas que cobrem o peritônio4,5.

No caso descrito, a TC só evidenciou líquido em cavidade e espessamento jejunal, mas afastou outras hipóteses diagnósticas. Através do resultado da TC, os achados peroperatórios e a ausência de antecedentes sugestivos de mesotelioma foi questionada a hipótese de tuberculose intestinal.

Os marcadores imuno-histoquímicos para esta doença são a calretinina, antígeno de tumor de Wilms, antígeno de membrana epitelial (EMA), mesotelina, e anticorpos anticélulas mesoteliais1,2,4. A biópsia com uso destes marcadores foi determinante para o diagnóstico de mesotelioma peritoneal.

As estratégias atuais para tratamento desta doença incluem cirurgia agressiva com quimio e radioterapia intraoperatória e pós-operatoria1-5.

Devido a isto, após a obtenção do diagnóstico final de mesotelioma, o paciente foi referenciado para um centro especializado oncológico com o objetivo de realizar cirurgia citorredutiva e iniciar quimio e radioterapia.

O diagnóstico diferencial do mesotelioma peritoneal inclui outros tumores serosos, como carcinomas papilares serosos, carcinomas ováricos serosos e cânceres gastrointestinais envolvendo o peritônio. Pode-se incluir tuberculose intestinal ou peritoneal, principalmente pela aparência macroscópica durante e laparoscopia exploradora4,5.

Nosso relato de caso procura evidenciar aos cirurgiões, através da exposição de um caso de mesotelioma peritoneal, que é possível o aparecimento da mesma sem o antecedente de exposição ao asbesto, o que é típico na prática clínica para se suspeitar dessa doença.

 

REFERÊNCIAS

1. Yano H, Moran BJ, Cecil TD, Murphy EM. Cytoreductive surgery and intraperitoneal chemotherapy for peritoneal mesothelioma. Eur J Surg Oncol. 2009;35(9):980-5.

2. Hesdorffer ME, Chabot JA, Keohan ML, Fountain K, Talbot S, Gabay M, et al. Combined resection, intraperitoneal chemotherapy, and whole abdominal radiation for the treatment of malignant peritoneal mesotelioma. Am J Clin Oncol. 2008;31(1):49-54.

3. Chuan TC, Yan TD, Deraco M, Glehen O, Moran BJ, Sugarbaker PH, et al. Multiinstitutional experience of diffuse intraabdominal multicystic peritoneal mesothelioma. Br J Surg. 2011;98(1):60-4.

4. Griniatsos J, Sougioultzis S, Dimitriou N, Vamvakopoulou V, Alexandrou P, Kyriakou V, et al. Diffuse malignant peritoneal mesothelioma presenting as intestinal obstruction. South Med J. 2009;102(10):1061-4.

5. Hesdorffer ME, Chabot J, DeRosa C, Taub R. Peritoneal mesothelioma. Curr Treat Options Oncol. 2008;9(2-3):180-90.

 

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