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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 3 - 19 Artigos

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http://www.dx.doi.org/10.30928/2527-2039e-20192247

Relato de Caso

Lesão de dieulafoy em bulbo duodenal

Duodenal bulb dieulafoy lesion

Paulo Fabrício Stanke1; Thais Lemos da Costa Dias1; Camila Akemi Yamashiro Koike1; Thainá Berto de Castro2; Jéssica Santos Corrêa2

1. Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, Serviço de Cirurgia Geral, Campo Grande, MS, Brasil
2. UNIDERP, Faculdade de Medicina, Campo Grande, MS, Brasil

Endereço para correspondência

Thainá Berto de Castro
E-mail: thainabertodecastro@hotmail.com

Recebido em 21/05/2019
Aceito em 10/06/2019

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

A hemorragia digestiva é uma importante causa de procura por atendimento na emergência, sendo a lesão de Dieulafoy uma etiologia pouco comum. Esta ocorre por uma malformação arterial cuja ruptura desencadeia um sangramento maciço, o qual pode se exteriorizar em forma de hematêmese ou melena. O presente relato traz o caso de um paciente do sexo masculino, jovem, atendido em pronto atendimento com hematêmese e melena de início súbito. O mesmo evoluiu rapidamente com instabilidade hemodinâmica, sendo realizada estabilização e submetido à endoscopia digestiva alta. Durante o procedimento foi identificada lesão de Dieulafoy em bulbo duodenal com presença de vasos visíveis e procedeu-se hemostasia por meio da aplicação de epinefrina. Com o caso apresentado, lembramos que a lesão de Dieulafoy é uma condição rara, mas que deve ser sempre lembrada em casos de hemorragia digestiva de causa obscura.

Palavras-chave: Endoscopia. Hematemese. Hemorragia Gastrointestinal.

INTRODUÇÃO

Hemorragia digestiva alta (HDA) é definida como sangramento de lesões localizadas no trato gastrointestinal acima do ângulo de Treitz1, sendo que lesão de Dieulafoy é uma causa rara e de difícil diagnóstico2. Consiste em uma arteríola com calibre persistente que faz protrusão em um pequeno defeito da mucosa3. Pode manifestar-se espontaneamente por sangramento gastrointestinal recorrente4 e ocorre frequentemente no estômago, mas pode ocorrer em outros lugares dentro e fora do trato gastrointestinal5. O caso relatado tem relevância por se tratar de uma causa rara de hemorragia digestiva alta com localização incomum.

 

RELATO DO CASO

Paciente D.W.T., 21 anos, sexo masculino, procurou atendimento médica no Hospital Santa Casa de Campo Grande - MS, com episódios de hematêmese e melena, de início súbito, por quatro horas. Evoluiu com rebaixamento do nível de consciência, palidez, tontura e síncope. Histórico de episódios de melena com remissão espontânea há quatro meses. Em avaliação clínica inicial, apresentava-se hipocorado e desidratado, hipotenso e taquicardíaco. Abdome e toque retal sem alterações ao exame físico. Laboratoriais: hemoglobina 7,4 g/dl e hematócrito 21,5%.

Foi submetido à endoscopia digestiva alta (EDA) sendo detectada lesão em bulbo duodenal do tipo Dieulafoy com presença de vasos visíveis (Figura 1). Efetuada hemostasia com epinefrina via endoscópica. Realizada reposição volêmica e três bolsas de concentrado de hemácias. Permaneceu internado em Unidade de Terapia Intensiva por três dias, apresentou boa evolução clínica e estabilização hemodinâmica, sendo transferido para leito de enfermaria onde permaneceu por dois dias. Recebeu alta hospitalar com acompanhamento ambulatorial e prescrição de Inibidor de Bomba de Próton durante oito semanas.

 


Figura 1. Endoscopia digestiva alta evidenciando lesão em bulbo duodenal tipo Dieulafoy.

 

DISCUSSÃO

O caso clínico apresentado possui grande relevância, pois a lesão de Dieulafoy, embora incomum, é uma importante etiologia de sangramento agudo gastrointestinal com grande capacidade de causar hemorragia maciça e recorrente6. A maioria (70%) das lesões ocorre no estômago7,8, principalmente no estômago proximal, sendo que a lesão em duodeno, como no paciente relatado, possui uma prevalência de 15%9. A apresentação clínica mais comum é a associação de hematêmese com melena5, como referiu o paciente deste relato.

A lesão de Dieulafoy acomete com maior prevalência idosos e aqueles com comorbidades associadas, como insuficiência renal crônica, hipertensão arterial sistêmica, cirrose hepática, diabetes mellitus tipo 2 e angiodisplasias3. Provavelmente, esses distúrbios sistêmicos alteram a angiogênese e levam ao surgimento de neovasos arteriais que, sob condições estressantes à mucosa digestiva, podem corroer e levar à hemorragia10.

Estabilização do paciente com reposição volêmica, avaliação da necessidade de transfusão sanguínea e correção dos distúrbios eletrolíticos e/ou de coagulação fazem parte do manejo inicial do caso9. Não há consenso sobre o tratamento das lesões, na abordagem do paciente relatado foi optado por um dos métodos endoscópicos, que são altamente eficientes, seguros e com baixas taxas de recorrência (menor que 10%)11. Há diferentes métodos via endoscópica: realização de escleroterapia (injeção local de epinefrina), coagulação térmica e tratamento mecânico (bandas ou clipes hemostáticos), a escolha depende do modo de apresentação, local da lesão, e experiên-cia do endoscopista12. Em caso de insucesso poderá ser considerado tratamento via angiografia e embolização7.

Desta forma, sabe-se que a lesão de Dieulafoy não é uma causa frequente de hemorragia digestiva, porém deve ser prontamente reconhecida por conta de sua capacidade de causar sangramentos recorrentes e maciços. Conhecer esta etiologia, saber a melhor abordagem diagnóstica e terapêutica é de grande importância nos serviços de emergência. Atualmente, o tratamento endoscópico tem se mostrado altamente eficaz na abordagem da lesão de Dieulafoy, sendo a terapia de escolha quando disponível.

 

REFERÊNCIAS

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2. Federação Brasileira de Gastroenterologia. Projeto diretrizes: hemorragia digestiva. São Paulo: Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina; 2002.

3. Zeve CH, Zeve RH, Bernardi GM, Zeve JLM. Lesão de Dieulafoy do fundo gástrico. GED Gastroenterol Endosc Dig. 2017;36(2):55-7.

4. Komissarov IA, Borisova NA, Komissarov MI, Aleshin IJ. Successful endovascular treatment of a 13-month-old child with gastrointestinal bleeding due to Dieulafoy syndrome of duodenum. Radiol Case Rep. 2018;13(3):685-8.

5. Stanes A, Mackay S. Dieulafoy lesion of the gallbladder presenting with bleeding and a pseudo-mirizzi syndrome: a case report and review of the literature. Int J Surg Case Rep. 2016;21:12-5.

6. Longstreth GF. Epidemiology of hospitali zation for acute upper gastroin-testinal hemorrhage: a population-based study. Am J Gastroenterol. 1995;90(2)206-10.

7. Baxter M, Aly EH. Dieulafoy's lesion: current trends in diagnosis and management. Ann R Coll Surg Engl. 2010;92(7):548-54.

8. Cappell MS. Gastrointestinal vascular malformations or neoplasms: arterial, venous, arteriovenous and capillary. In: Yamada T, editor. Text-book of Gastroenterology. 5th ed. West Sussex, UK: Wiley-Blackwell; 2009. p. 2785-2810.

9. Norjkov B, Cappell MS. Gastrointestinal bleeding from Dieulafoy's lesion: clinical presentation, endoscopic findings, and endoscopic therapy. World J Gastrointest Endosc. 2015; 7(4):295-307.

10. Ibanez, A, Castro E, Fernández E, Baltar R, Vázquez S, Ulla JL, et al. Aspectos clínicos y tratamiento endoscópico de la hemorragia digestiva por lesión de Dieulafoy. Rev Esp Enferm Dig. 2007;99(9):505-10.

11. Schmulewitz N, Baillie J. Dieulafoy lesions: a review of 6 years of experience at a tertiary referral center. Am J Gastroenterol. 2001;96(6):1688-93.

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