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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 3 - 19 Artigos

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http://www.dx.doi.org/10.30928/2527-2039e-20192299

Relato de Caso

Dirofilariose pulmonar - um atípico diagnóstico de um nódulo pulmonar

Pulmonary dirofilariosis - an unusual diagnosis of a solid lung nodule

Rodrigo Bettega de Araújo1; Liu Estradioto1; Marlos de Souza Coelho1; Vanessa Bettega de Araújo1; Larissa Dalla Costa Kusano2; Larissa Luvison Gomes da Silva3

1. Hospital Marcelino Champagnat, Serviço de Cirurgia Torácica, Curitiba, PR, Brasil
2. Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, Cirurgia Plástica e Reparadora, Curitiba, PR, Brasil
3. Hospital Marcelino Champagnat, Serviço de Anatomia Patológica, Curitiba, PR, Brasil

Endereço para correspondência

Rodrigo Bettega de Araújo
E-mail: rodrigobettega@hotmail.com

Recebido em 07/07/2019
Aceito em 25/07/2019

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

A dirofilariose pulmonar humana ocorre quando o homem se torna um hospedeiro acidental do parasita após uma picada de mosquito infectado. A larva pode circular no sangue do hospedeiro ou manter-se restrita ao subcutâneo causando nódulos. Embora geralmente assintomática mesmo quando há circulação sistêmica do parasita, a infecção pode levar à formação de nódulos pulmonares periféricos que mimetizam o câncer de pulmão. Apesar da possibilidade de diagnóstico com métodos não invasivos, a maioria das vezes a ressecção cirúrgica será o único método possível de confirmação. Relatamos o caso de uma paciente feminina de 50 anos, sem comorbidades ou história de tabagismo que descobriu acidentalmente um nódulo pulmonar em exames de rotina que o histopatológico revelou numerosas estruturas vermiformes compatíveis com Dirofilaria immitis.

Palavras-chave: Dirofilariose. Nódulo Pulmonar Solitário. Pneumopatias. Infecção.

INTRODUÇÃO

Infecções parasitárias pulmonares são raras e podem levar à formação de nódulos pulmonares que mimetizam o câncer de pulmão. Em 1887, pela primeira vez no mundo e no Brasil, as larvas foram identificadas no ventrículo direito de uma criança após uma autópsia1. Em 1961, Dashiell relatou o primeiro caso de dirofilariose pulmonar humana nos Estados Unidos2.

Desde então, vários casos foram relatados na literatura americana, europeia e asiática, sendo um caso associado concomitantemente ao diagnóstico de câncer de pulmão. Apesar de ter um curso benigno e autolimitado, a maioria dos pacientes necessitará de ressecção cirúrgica para confirmação diagnóstica visto a dificuldade no diagnóstico apenas com a biópsia percutânea com agulha. O conhecimento sobre exposição do paciente a áreas endêmicas, onde a frequência de mosquitos vetores e cães infectados é alta, são elementos da história clínica que merecem atenção para inclusão da dirofilariose no diagnóstico diferencial do nódulo pulmonar solitário.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, 50 anos, não tabagista, sem história médica pregressa, descobriu acidentalmente um nódulo pulmonar periférico de 2 cm em radiografia de tórax de rotina. A paciente negou sintomas de tosse, dor torácica, hemoptise, calafrios noturnos ou perda de peso. Ela negou viagens recentes ou trauma e possuía uma radiografia prévia que não mostrava lesões pulmonares. A tomografia de tórax demonstrou um nódulo subpleural sólido de 2,5 x 2,5 cm no lobo superior direito, sem linfo-nodomegalia mediastinal ou outras lesões.

O PET-CT foi negativo para aumento da atividade glicolítica no nódulo ou tecidos distantes (Figura 1). A biópsia percutânea evidenciou agregados linfocitários entre o tecido conjuntivo, sem sinais de malignidade. A broncoscopia foi normal e o lavado broncoalveolar foi negativo para bacilos e bactérias. Pela persistência da lesão pulmonar e ausência de diagnóstico histológico confirmatório, foi recomendada ressecção pulmonar em cunha por videotoracoscopia e congelação da lesão. Uma lesão periférica sólida foi visualizada na face inferior e lateral do segmento anterior do lobo superior direito (Figura 2). A congelação evidenciou estruturas vermiformes cilíndricas.

 


Figura 1. A) Radiografia de tórax mostrando opacidade nodular na periferia do lobo superior direito (seta). B) PET-CT sem aumento da atividade glicolítica no nódulo.

 

A paciente recebeu alta no segundo dia de pós-operatório e o laudo anatomopatológico apontou nódulo necrótico com reação granulomatosa e gigantocelular, com estruturas vermiformes compatíveis com Dirofillaria immitis.

 


Figura 2. A e B) Imagens intraoperatória mostrando o nódulo na periferia do lobo superior direito próximo à interseção das fissuras oblíqua e horizontal. C) Aspecto macroscópico do nódulo e Dirofillaria immitis. D) Aspecto microscópico da Dirofillaria.

 

DISCUSSÃO

Infecções parasitárias pulmonares são incomuns e podem mimetizar nódulos neoplásicos, especialmente no caso de dirofilariose pulmonar3,4. A Dirofilaria sp é um parasita de cães, comum em países subdesenvolvidos, transmitido por picadas de mosquito (comumente Culex, Aedes e Anopheles)4. O parasita entra na corrente sanguínea e atinge o ventrículo direito, onde se desenvolve e se multiplica e, às vezes, pode levar à morte do animal devido à insuficiência cardíaca.

O homem é acidentalmente infectado pela picada do mosquito e pode desenvolver as manifestações subcutâneas ou pulmonares da doença. Na apresentação subcutânea, as larvas não penetram na corrente sanguínea e criam nódulos ou massas subcutâneas. Quando as larvas entram na corrente sanguínea e alcançam o ventrículo direito, elas não conseguem se desenvolver para a forma adulta, então morrem e embolizam através da circulação pulmonar levando ao infarto. Há apenas um relato na literatura que sugere embolização sistêmica e pulmonar do parasita associada à dirofilariose subcutânea2. O paciente pode ser assintomático, uma minoria refere dor no peito, tosse, febre e mal-estar1,5. A eosinofilia no sangue periférico não é comum, variando de 4 a 15% de acordo com a literatura5. As lesões pulmonares identificadas nos exames de imagem variam de 0,7 a 4 cm, predominantemente únicas e subpleurais, com raros relatos associados a derrame pleural5. O diagnóstico definitivo em mais de 95% dos casos relatados foi por ressecção pulmonar, com exceção de três casos diagnosticados por biópsia percutânea e um por biópsia pleural por agulha5. Os métodos sorológicos não comprovam a infecção, provavelmente porque o parasita já está morto quando aparece a alteração que incita à investigação. A ressecção cirúrgica é, na maioria das vezes, o diagnóstico e tratamento, com casos raros exigindo o uso de antiparasitários quando existem múltiplas lesões que não regridem ou diminuem espontaneamente.

A dirofilariose pulmonar é uma causa rara de nódulo pulmonar que pode mimetizar o câncer de pulmão e, na maioria das vezes, requer ressecção cirúrgica para o diagnóstico. Em 1887, pela primeira vez no mundo e no Brasil, as larvas foram identificadas no ventrículo direito de uma criança após uma autópsia1. Em 1961, Dashiell relatou o primeiro caso de dirofilariose pulmonar humana nos Estados Unidos2. Desde então, vários casos foram relatados na literatura americana, europeia e asiática, sendo um caso associado concomitantemente ao diagnóstico de câncer de pulmão5. A prevalência de cães infectados no Brasil varia de 9 a 25%, de acordo com a região, aumentando em regiões litorâneas e, nos países subdesenvolvidos esses números são mais expressivos2.

Sendo assim, apesar da alta prevalência de câncer de pulmão na atualidade, as causas benignas de nódulos pulmonares devem ser lembradas, incluindo a dirofilariose pulmonar. Visto a dificuldade no diagnóstico com métodos não invasivos dessa condição, o acompanhamento tomográfico, em pacientes que vivem ou foram expostos a áreas de alta prevalência de dirofilariose em cães, pode impedir a ressecção cirúrgica de pequenos nódulos periféricos que regridem, sugerindo causas não neoplásicas, tais como dirofilariose. A imunização de cães e o controle dos vetores também são medidas preventivas importantes para a saúde pública.

 

REFERÊNCIAS

1. Milanez de Campos JR, Barbas C, Filomeno L, Fernández A, Minamoto H, Barbas Filho J, et al. Human pulmonary dirofilariasis: analysis of 24 cases from Sao Paulo, Brazil. Chest. 1997;112(3):729-33.

2. Echeverri A, Longo RF, Cheque W, Bunett CM. Pulmonary dirofilariasis. Ann Thorac Surg.1999;67(1):201-2.

3. Reddy MV. Human dirofilariasis: An emerging zoonosis. Trop Parasitol. 2013;3 (1):2-3.

3. Selvachandran A, Foley RJ. Subcutaneous and Pulmonary Dirofilariasis with evidence of splenic involvement. Case Rep Pulmonol. 2016. doi: http://dx.doi.org/10.1155/2016/8212387

5. Mulanovich EA, Mulanovich VE, Rolston KV. A case of Dirofilaria pulmonary infection coexisting with lung cancer. J Infect. 2008;56(4): 241-3.

 

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