Orgão Oficial

RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 2 - 13 Artigos

Voltar ao Sumário

http://www.dx.doi.org/10.30928/2527-2039e-20192038

Relato de Caso

Schwannoma solitário de nervo intercostal na transição toracoabdominal

Solitary schwannoma of intercostal nerve in the thoraco-abdominal transition

Guilherme Cerqueira Gonzales; Gustavo Alves Serralha; Rafael Borella Pelosi; Ricardo Tonim Tótoli; Luiz Carlos de França Junior; Juverson Alves Terra

Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Disciplina de Cirurgia Geral, Uberaba, MG, Brasil

Endereço para correspondência

Guilherme Cerqueira Gonzales
E-mail: guilhermecerqueiragonzales@hotmail.com

Recebido em 21/10/2018
Aceito em 29/03/2019

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

Os schwannomas são tumores benignos raros, de origem ectodérmica, bem circunscritos, geralmente ligados a nervos periféricos e constituídos de população clonal de células de Schwann. No presente trabalho relatamos um caso de schwannoma, em topografia atípica, diagnosticado incidentalmente durante a investigação de um paciente com abdome agudo inflamatório. Discutimos a apresentação, diagnóstico, tratamento e prognóstico. Concluímos, enfatizando a importância da consideração de schawnnoma como diagnóstico diferencial para as massas de parede torácica interna.

Palavras-chave: Neurilemoma. Neoplasias de Tecido Nervoso. Cirurgia Geral. Cirurgia Torácica. Nervos Intercostais.

INTRODUÇÃO

Os Schwannomas, também conhecidos como neurilemomas, são raros tumores benignos, de origem ectodérmica, bem circunscritos, geralmente ligados a nervos periféricos que consistem de uma população clonal de células de Schwann. Situam-se entre os mais comuns tumores de bainha de nervos periféricos, um grupo que também engloba neurofibromas, perineuriomas, tumores de células granulares e tumores malignos da bainha dos nervos periféricos1,2.

O presente trabalho relata o caso de um paciente adulto-jovem do sexo masculino no qual foi encontrado um schwannoma em topografia atípica durante uma Tomografia Computadorizada (TC) de abdominal para investigação de abdome agudo por apendicite.

 

RELATO DO CASO

Paciente de 35 anos, sexo masculino, previamente hígido, deu entrada no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro com quadro sugestivo de apendicite aguda. Foi submetido à TC de abdome (Figura 1) a qual evidenciou, além da apendicite aguda inflamatória, um incidentaloma caracterizado como uma lesão expansiva de densidade de partes moles, lobulada, bem delimitada, com realce após injeção do meio de contraste, medindo 4,5 x 3,8 x 4,8cm, na parede abdominal anterior à esquerda, que ocupava a face interna da 8ª, 9ª e 10ª costela, com invasão da musculatura intercostal.

 


Figura 1. TC de abdome evidenciando lesão expansiva em parede de hemitórax esquerdo.

 

Na sequência, o paciente foi encaminhado ao bloco cirúrgico para apendicectomia e resolução do abdome agudo inflamatório. Posteriormente à cirurgia, evoluiu bem no pós-operatório e teve alta, com programação de retorno ao ambulatório para avaliação do incidentaloma encontrado nesta internação. O paciente não manifestava qualquer sintoma relacionado ao achado da tomografia.

Foi feito ultrassonografia de parede abdominal para maior detalhamento da lesão, a qual encontrou imagem nodular, de contornos lobulados, ecotextura heterogênea aderida à parede abdominal ântero-superior esquerda medindo 5,2 x 3,5 x 5,4 cm e linfonodos entre os arcos costais inferiores medindo 1,1 x 0,5 cm. Então procedeu-se nova internação para realização de uma biópsia excisional da massa. O paciente foi submetido a uma videolaparoscopia (Figura 2), durante a qual foi visualizada uma massa tumoral extraperitoneal em transição toracoabdominal esquerda; realizada ressecção com margens e enviada a peça para o anatomopatológico (Figuras 3 e 4). O procedimento foi realizado com sucesso, sem intercorrências. O paciente se recuperou satisfatoriamente.

 


Figura 2. Imagem da videolaparoscopia mos-trando a lesão.

 

 


Figura 3. Massa ressecada e já fixada por formol.

 

 


Figura 4. Imagem da microscopia da massa evidenciando as clássicas paliçadas de núcleos e áreas acelulares entre elas, chamadas de corpos de Verocay.

 

DISCUSSÃO

O schwannoma não tem predileção por sexo ou raça, e pode acometer pessoas de qualquer idade, sendo mais comum entre 20 e 60 anos3.

Geralmente são solitários e têm sua maior incidência em nervos periféricos, nas regiões da cabeça e pescoço e superfícies flexoras das extremidades. Lesões centrais tendem a surgir de raízes nervosas sensoriais, sendo um sítio intracraniano comum o ramo vestibular do oitavo nervo craniano, também podendo surgir do nervo trigêmeo e de outros nervos cranianos inferiores1.

Têm sido reportados em quase todas as partes do organismo, desde o tálamo até na vesícula seminal. Usualmente, são encontrados no mediastino, retroperitônio ou pelve, raramente ocorrendo na parede torácica. Quando na parede torácica, originam-se majoritariamente dos nervos intercostais e, em raros casos, da pleura4.

Três grandes séries de casos descreveram 326 pacientes com tumores neurogênicos torácicos, 308 (90%) dos quais com origem no mediastino e somente 18 (5%) surgiram perifericamente aos nervos inter-costais5.

A maioria dos schwannomas surge da bainha de grandes nervos periféricos e aparece abaixo ou ao nível da camada de tecido adiposo subcutâneo, mesmo os que ocorrem superficialmente2.

Quanto ao seu crescimento, apesar do nosso paciente ser do sexo masculino, é importante citar a existência de relatos de Schwannomas diagnosticados durante a gravidez, seja por exames de rotina ou pelo surgimento de sintomatologia. Isso se deve a presença de receptores de progesterona (em cerca de 70% dos tumores) e estrogênio (em 30%), o que pode promover um maior crescimento desses tumores durante o período gravídico6.

Os neurilemomas expressam manifestações clínicas que variam de acordo com o tamanho do tumor e de sua localização anatômica. Não costumam interferir na condução nervosa, mas podem crescer e comprimir o nervo de origem, gerando dor e disestesia2.

Os de parede torácica são benignos em sua maioria, mas há casos malignos. Nessa localização, os sintomas mais frequentes são tosse irritativa, dispneia, disfagia e dor torácica, dependendo da sua localização. Alguns pacientes podem ser assintomáticos, sendo diagnosticado incidentalmente em exames radiológicos de rotina ou durante a investigação de outra patologia, como foi o caso do paciente relatado4.

Histologicamente, são tumores bem encapsulados e têm sua cápsula derivada do nervo de origem. Possuem áreas com celularidade densa e típica (Antoni tipo A), alternando com áreas mixoides e edematosas (Antoni tipo B). O nervo de origem, geralmente é deslocado para a periferia do tumor devido à proliferação de células de Schwann ocorrer ao longo do nervo3.

Os schwannomas reagem fortemente com a proteína S100, sendo a imuno-histoquímica um método usado para auxiliar no diagnóstico e fazer a diferenciação com tumores malignos da bainha de nervos periféricos quando há suspeita de malignidade1.

A análise anatomopatológica do caso relatado descreveu fragmento nodular de tecido com superfície externa lisa, amarela e lobulada medindo 5,3x4,0x3,0cm. Aos cortes, o tecido era marrom e elástico, e à microscopia havia características típicas de schwannoma sendo as amostras com margens livres. Não foi realizada imuno-histoquímica, pois a análise microscópica era suficientemente confirmatória.

No geral, o schwannoma tem um bom prognóstico, sendo raros os casos de degeneração maligna. Somente ocorre recorrência local do tumor se houver uma ressecção não radical da massa7.

 

REFERÊNCIAS

1. Hilton DA, Hanemann CO. Schwannomas and their pathogenesis. Brain Pathol. 2014;24(3):205-20.

2. Mishra A, Hamadto M, Azzabi M, Elfagieh M. Abdominal wall schwannoma: case report and review of the literature. Case Rep Radiol. 2013; 2013:456863.

3. Mikolajczyk AE, Sacro YA. Atypical cause of axillary pain [clinical communication to the editor]. Am J Med. 2016;129 (2):29-30.

4. Rodríguez CA, Munhoz AH, Zampier JA, Silva AP, Fustes OH. Benign intercostal nerve schwannoma simulating pulmonary neoplasm: case report. Arq Neuropsiquiatr. 2004;62 (4):1100-3. [Portuguese]

5. McClenathan JH, Bloom RJ. Peripheral tumors of the intercostal nerves. Ann Thorac Surg. 2004;78(2):713-4.

6. Terra Júnior JA, Daneze ER, Terra GA, Etchebehere RM, Barbosa AB, Terra SA. Subcostal schwannoma in pregnancy. Arq Neuropsiquiatr. 2012;70(11):901-2.

7. Ginesu GC, Puledda M, Feo CF, Cossu ML, Fancellu A, Addis F, et al. Abdominal wall schwannoma. J Gastrointest Surg. 2016;20(10):1781-3.

 

Copyright 2019 - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões