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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 1 - 14 Artigos

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http://www.dx.doi.org/10.30928/2527-2039e-20192024

Relato de Caso

Laringectomia total em criança com rabdomiossarcoma embrionário de laringe

Total laryngectomy in a child with laryngeal embryonal rhabdomyosarcoma

Márcio Costa Fernandes; Marco Antônio Cruz Rocha; Lia Mizobe Ono; Fábio Arruda Binda; Gabriel Pacífico Seabra Nunes

Fundação Centro de Controle em Oncologia do Estado do Amazonas, Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Manaus, AM, Brasil

Endereço para correspondência

Márcio Costa Fernandes
E-mail: mcostafernandes2010@hotmail.com; mcostafernandes123@gmail.com

Recebido em 03/10/2018
Aceito em 09/01/2019

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

Rabdomiossarcoma é um tumor maligno mesenquimal, predominantemente observado em pacientes pediátricos. É extremamente raro em sítio laríngeo, com poucos casos publicados na literatura. A sintomatologia e o seu aspecto macroscópico podem simular outras variantes tumorais da laringe e, portanto, o estudo histopatológico deve ser associado à imuno-histoquímica para o diagnóstico correto. Reportamos o caso raro de um rabdomiossarcoma embrionário tratado através de cirurgia radical e radioquimioterapia adjuvante. Enquanto a conduta em rabdomiossarcomas de cabeça e pescoço envolve desde a cirurgia a procedimentos menos invasivos, o tratamento multimodal também é eficaz, como demonstrado no presente caso. Estudos ainda são necessários para elucidar o comportamento biológico deste tumor e determinar o tratamento mais apropriado.

Palavras-chave: Rabdomiossarcoma Embrionário. Neoplasias Laríngeas; Laringectomia; Quimioterapia.

INTRODUÇÃO

Rabdomiossarcoma é o tumor de partes moles mais frequentes em pacientes pediátricos. É desenvolvido a partir de uma célula primitiva do tecido mesenquimal e se assemelha a uma célula muscular, em desenvolvimento, de um feto de aproximadamente sete a 10 semanas1,2. Essa neoplasia apresenta incidência bimodal, tendo um pico entre dois e quatro anos e outro pico entre 12 e 16 anos de idade; sendo incomum em adultos e, com predileção pelo sexo masculino, em alguns artigos há inversão desta predileção4,5.

Em relação à histologia da doença, há três subtipos: o embrionário, o alveolar e o pleomórfico. O embrionário é o mais comum e geralmente está presente nas crianças. O alveolar também acomete principalmente crianças, enquanto que o pleomórfico é o menos comum, acometendo principalmente adultos1,2,5.

Dentre as localizações mais comuns em crianças, a região da cabeça e pescoço é uma das principais áreas acometidas, e em relação à localização que o rabdomiossarcoma acomete, existem três subtipos que se subdividem em: orbital, parameníngeo e não parameníngeo. O orbital apresenta os melhores prognósticos. Já o não parameníngeo, os sítios mais acometidos são a nasofaringe e o nariz1,2. Apesar desse tipo de tumor ser bem comum na cabeça e pescoço, o acometimento da laringe é raro, sendo presente em cerca de 3% dos casos. Sendo que das partes da laringe, a supraglote e a glote são as predominantemente afetadas1,2. As manifestações clínicas mais comuns do rabdomiossarcoma de laringe são sintomas de obstrução das vias aéreas como dispneia e estridor. Outros sintomas como rouquidão e disfagia também são comuns. Dor e perda ponderal podem ocorrer, geralmente indicando uma doença mais avançada2,7.

Ainda há um grande debate acerca da abordagem terapêutica mais indicada. Algumas literaturas preconizam a cirurgia, outras são adeptas da vertente de preservação do órgão. Independente disso sabe-se que deve ser um tratamento multimodal e multidisciplinar visando limitar ao mínimo as possíveis complicações para o paciente3,8.

 

RELATO DO CASO

Paciente, sete anos, sexo feminino, tendo a mãe percebido que a criança havia iniciado um quadro de mudança na qualidade vocal, evoluindo posteriormente para rouquidão além de tosse e sensação de sufocamento noturno com aparecimento de roncos durante sono. Pouco tempo depois, procurou uma unidade básica de saúde onde foi realizado exames laboratoriais de rotina que não evidenciaram alterações. No mesmo ano, a paciente evoluiu com perda de peso, piora dos sintomas, evoluindo com dispneia moderada, o que motivou a procura de um serviço de pronto atendimento infantil, onde nesse atendimento, durante oroscopia, foi evidenciada uma massa tumoral que se projetava na orofaringe posterior a base da língua. Foi optado na ocasião pela realização de traqueostomia cervical e no mesmo ato foi realizada laringoscopia de suspensão e feito biópsia da massa tumoral. Na ocasião da propedêutica, o exame de videolaringoscopia não foi realizado por impossibilidade de progressão do aparelho devido massa tumoral que invadia orofaringe e progredia inferiormente para laringe.

Após alta hospitalar, foi encaminhada ao serviço de Oncologia de cabeça e pescoço da Fundação Centro De Controle De Oncologia do Estado do Amazonas - FCECON, com laudo da biópsia e diagnóstico de neoplasia maligna indiferenciada. Foi solicitada imuno-histoquímica da peça que confirmou o diagnóstico de rabdomiossarcoma embrionário da laringe.

Tomografia computadorizada de pescoço evidenciou uma lesão expansiva, sólida, heterogênea que realçava pelo contraste venoso, com áreas hipodensas, necróticas de permeio e áreas gasosas esparsas na periferia desde a região posterior da rinofaringe, obliterando e distendendo toda a laringe indissociando suas estruturas internas, acometendo os espaços supraglóticos e subglóticos com acometimento da cartilagem tireoide (Figura 1).

 


Figura 1 - Tomografia de tórax e abdômen sem alterações. Demonstra os vários cortes tomográficos demonstrando a lesão tumoral da região cervical com contraste endovenoso evidenciando destruição da cartilagem laríngea e apontando para estágio avançado da doença. 1A; Tomografia computadorizada de região cervical em corte axial.

 

 


Figura 1B; Tomografia computadorizada de região cervical com contraste endovenoso evidenciando destruição de cartilagem laríngea e progressão para base da língua,

 

 


Figura 1C; Tomografia computadorizada de região cervical demonstrando o comprometimento avançado do aparelho laríngeo e obstrução aerodigestiva superior.

 

Pela lesão avançada de laringe e com a perda de sua função, foi proposta uma laringectomia total, com reconstrução da região faríngea correspondente utilizando um retalho axial miofascial de musculo peitoral maior direito. No inventário intra-operatório, evidenciou-se uma lesão volumosa de região supraglótica, vegetante, com destruição da cartilagem tireoide, sendo o estadiamento intra-operatório T4a, N0, M0.

No pós-operatório, paciente evoluiu de forma satisfatória, com melhora progressiva recebendo alta no décimo dia pós-operatório.

O resultado anatomopatológico confirmou o diagnóstico de rabdomiossarcoma embrionário pT4a, N0, M0, com evidências de margens exíguas e imuno-histoquímica foi positiva para miogenina, desmina, produto do gene INI-1 e CD34 focalmente positivo.

A paciente foi encaminhada para avaliação da oncologia clínica e radioterápica, que optaram pela realização de quimioterapia e radioterapia adjuvante.

Realiza segmento trimestral pós-cirúrgico, estando há quase dois anos com todos os exames de segmento sem evidência de recorrência da doença.

 

DISCUSSÃO

Rabdomiossarcoma é um tumor maligno que se desenvolve a partir do mesenquima embrionário que normalmente tem início na musculatura estriada. É o mais comum sarcoma de partes moles na criança, representa 5% de todos os tumores malignos até 15 anos de idade. Menos de 2% dos rabdomiossarcomas na região da cabeça e pescoço, ocorrem na laringe8,9. Os locais mais acometidos são a face, região periorbital, região jugal e parotídea13. Sendo que de todos os rabdomiossarcomas, 40% deles ocorrem na região da cabeça e pescoço e em 60% dos casos com predileção pela órbita, nasofaringe e cavidade oral10. O tipo embrionário é o segundo mais comum tumor maligno na infância, responde por 80% de todos os tipos de rabdomiossarcoma e caracteriza-se geneticamente pela perda de heterozigosidade do locus 11q1511.

A sobrevida desses pacientes está relacionada com o estádio em que se encontra a doença. O IRSG (Intergroup Rhabdo-myosarcoma Study Group) criou um sistema de classificação do rabdomiossarcoma que é dividido em quatro categorias: tipo I - doença localizada e com completa ressecção cirúrgica; tipo II - doença localizada, mas com evidência de invasão locorregional, incluindo gânglios linfáticos; tipo III - ressecção incompleta ou biópsia com doença residual; tipo IV - metástase à distância7.

A disfonia é o principal sintoma inicial, podendo evoluir com disfagia. Algumas crianças cursam com aparecimento de massa cervical e, em alguns casos uma traqueostomia de emergência é necessária para garantir via aérea em casos de grandes lesões tumorais que levam a obstrução da via aérea12. O diagnóstico é obtido por meio de biópsia para análise de amostra tecidual que, microscopicamente se caracterizam pelo aglomerado de células primitivas de pequenas dimensões, algumas das quais com processos eosinofílicos excêntricos, que se localizam imediatamente sob as superfícies mucosas14.

De acordo com IRIS-V (Intergroup Rhabdomyosarcoma Study V), o tratamento do rabdomiossarcoma embrionário tem se direcionado à preservação de órgãos, com protocolo de tratamento multimodal, sendo que o papel da cirurgia está limitado à biopsia ou paliação em caso de obstrução de via aérea já que o rabdomiossarcoma embrionário apresenta uma alta resposta ao tratamento químio e radioterápico7,15. A literatura aponta para um manejo de preservação de órgão em casos de rabdomiossarcoma embrionário de laringe pela boa resposta ao tratamento quimioterápico e radioterápico, sendo que procedimentos cirúrgicos tem se restringido a ressecções mais econômicas, parciais, que preservam a função da laringe ou no manejo diagnóstico dessas lesões através da biópsia15.

O caso relatado foi diagnosticado em fase tardia, onde no momento do diagnóstico se evidenciou uma lesão volumosa em um estágio tumoral avançado onde o órgão acometido já havia sido destruído pela lesão tumoral e evoluído com perda de função, com estadiamento T4a, N0, M0, o que motivou optarmos pela realização da cirurgia como principal método de tratamento. Uma laringectomia total com retalho axial miofascial de músculo peitoral maior direito para reconstrução faríngea foi proposta como terapêutica inicial. No resultado histopatológico foi evidenciado o comprometimento de margens cirúrgicas, o que motivou a solicitação e manejo da doença com radioterapia e quimioterapia.

 

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