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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 4 - 14 Artigos

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http://www.dx.doi.org/1030928/2527-2039e-20182002

Relato de Caso

Leiomioma parauretral - caso clínico e revisão da literatura

Paraurethral Leiomyoma - case report and review of the literature

Raquel Catarino1; Diogo Pereira1; Carlos Ferreira1,2; André Cardoso1,2; Tiago Correia1,2; Manuel Cerqueira1,2; Frederico Reis1,2; Madalena Pimenta2; Rui Prisco1,2

1. Hospital Pedro Hispano, Serviço de Urologia, Senhora da Hora, Matosinhos, Portugal
2. Hospital CUF Porto, Departamento de Urologia, Porto, Portugal

Endereço para correspondência

Raquel Catarino
E-mail: raquelcatarino@gmail.com; raquelcatarino@yahoo.com

Recebido em 11/09/2018
Aceito em 18/10/2018

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

INTRODUÇÃO: Os leiomiomas uretrais são doenças raras. Constituem tumores mesenquimatosos com origem no músculo liso uretral e parauretral e surgem mais comumente em mulheres em idade reprodutiva.
CASO CLÍNICO: Mulher de 49 anos, com queixas de massa perineal crescente e dispareunia, com imagem nodular em ressonância magnética nuclear, tratada cirurgicamente com excisão completa do tumor. A análise anatomopatológica demonstrou leiomioma parauretral. A intervenção cirúrgica foi realizada com sucesso, com resolução dos sintomas e sem complicações, nomeadamente incontinência urinária. A paciente permaneceu assintomática, sem evidência de recorrência durante o seguimento.
CONCLUSÕES: Este estudo demonstra um caso de leiomioma parauretral com localização incomum, na vertente distal da uretra, sem de invasão uretral demonstrada em uretrocistoscopia e ressonância magnética nuclear.

Palavras-chave: Leiomioma. Neoplasias Uretrais. Uretra.

INTRODUÇÃO

Leiomiomas são tumores benignos com origem no músculo liso que surgem ao longo do trato genitourinário e raramente no trato gastrointestinal1. Embora os leiomiomas uterinos sejam muito frequentes, os leiomiomas uretrais e parauretrais são entidades raras, com poucos casos descritos na literatura2-6.

Descrevemos um caso clínico de leiomioma parauretral, sem envolvimento da uretra tratado cirurgicamente.

 

RELATO DO CASO

Mulher de 49 anos, sem antecedentes de relevo, recorre à consulta de urologia por massa perineal gradualmente crescente, ligeiramente dolorosa, com seis meses de evolução. Clinicamente, apresentava dispareunia, sem sintomas do trato urinário, nomeadamente disúria, urgência, frequência, incontinência urinária, noctúria ou hematúria. Ao exame físico, apresentava uma massa localizada na vertente posterior do meato uretral externo, bem definida, ovoide, dolorosa à palpação, com cerca de 3cm. Analiticamente sem alterações de relevo. Realizou ressonância magnética nuclear para caracterização da lesão, que revelou uma massa nodular com cerca de 22x16x19mm, localizada em íntimo contato com a parede anterior do terço distal da vagina, com densidade espontânea não tipicamente cística, com sinal moderado em T2 e hipossinal em T1, com tênue captação de contraste, sem relação íntima ou continuada com a uretra. Útero, ovários e bexiga sem alterações (Figuras 1 e 2).

 


Figura 1. Visualização do tumor parauretral durante a intervenção cirúrgica, visualizando-se uma neoformação nodular na vertente posterior e distal da uretra.

 

 


Figura 2. Peça cirúrgica após excisão completa da massa tumoral.

 

A uretrocistoscopia revelou uretra normal, sem evidência de invasão do trato urinário inferior, esfíncter urinário intacto e mucosa vesical e meatos ureterais sem alterações.

Foi proposta para intervenção cirúrgica e foi realizada excisão total em bloco da massa (Figuras 3 e 4). O estudo anatomopatológico da peça revelou ressecção completa de leiomioma.

 


Figura 3. Imagem de ressonância magnética nuclear, onde se visualiza massa nodular com cerca de 22x16x19mm, localizada em íntimo contato com a parede anterior do terço distal da vagina. Corte transversal.

 

 


Figura 4. Imagem de ressonância magnética nuclear, onde se visualiza massa nodular com cerca de 22x16x19mm, localizada em íntimo contato com a parede anterior do terço distal da vagina. Corte sagital.

 

Apresentou boa evolução no pós-operatório, que decorreu sem complicações. Retirou o cateter vesical após sete dias, com micção espontânea. Durante o seguimento, sem sintomas urinários, nomeadamente incontinência urinária e com boa evolução cicatricial, sem complicações. Permaneceu assintomática, sem evidência de recorrência durante o seguimento.

 

DISCUSSÃO

Os leiomiomas parauretrais são tumores raros, benignos, com origem no músculo liso que circunda a parede uretral, sendo responsáveis por 5-7% das massas periuretrais2.

Tal como os miomas uterinos, estes tumores demonstram crescimento dependente de fatores hormonais, podendo expressar receptores de estrogénio e progesterona7. O primeiro caso de leiomioma uretral foi descrito por Buttner em 1894 e desde então têm sido publicados poucos estudos na literatura.

Estes tumores são mais frequentemente detectados em mulheres jovens, em idade reprodutiva, com idades compreendidas entre os 30 e 40 anos1.

No períneo, os leiomiomas podem ter origem na vulva, uretra ou tecido parauretral. Os leiomiomas uretrais são mais comumente originados a partir da parede anterior da uretra proximal, enquanto que os leimiomas parauretrais surgem a partir da parede anterior da vagina e septo vesicovaginal. Ao contrário dos tumores uretrais, os leiomiomas parauretrais raramente apresentam invasão da mucosa uretral. Estes tumores podem envolver a uretra distal, embora o segmento proximal seja o local mais comumente envolvido8,9. Este caso clínico descreve uma apresentação tumoral incomum, estando localizado na vertente distal da uretra.

Clinicamente, os sintomas são muito diversificados, e podem incluir massa perineal, dor localizada, dispareunia, hemorragia vaginal, disúria e outros sintomas do trato urinário baixo, hematúria e retenção urinária. No caso do tumor estar localizado na região da uretra distal pode ser visualizado como uma massa exteriorizada na região periuretral ao exame objetivo5, como o caso apresentado.

A transformação maligna ou metastização não foram ainda descritas e a recorrência é também muito rara. Dada à raridade destes tumores, não existem ainda orientações bem definidas quanto ao diagnóstico e seguimento dos doentes. No entanto, a identificação e diagnóstico dos leiomiomas parauretrais pode ser realizada com base nas características clínicas e imagiológicas com grau de certeza razoável10.

Dos exames auxiliares de diagnóstico, a ecografia e ressonância magnética nuclear são muito utilizadas na avaliação de massas perineais e ajudam na definição da localização da massa tumoral, avaliação de possíveis componentes sólidos, infiltração tecidual e identificação de planos de teciduais entre a massa e a uretra, com identificação de invasão uretral, que ajudam no planeamento do procedimento cirúrgico. A ressonância magnética nuclear é o método de escolha, dada a sua capacidade de definição anatómica e características de sinal típicas que ajudam na caracterização das lesões. Tipicamente, os leiomiomas têm uma aparência circular/esférica, hipointensas ou isointensas em T1 com contraste e isointensas ou hiperintensas em T25,9,11.

Neste caso, a cistoscopia e ressonância magnética nuclear permitiram confirmar que a massa se encontrava localizada a nível da uretra distal, com lúmen uretral normal, sem invasão da mucosa uretral e sem envolvimento do esfíncter urinário interno.

O diagnóstico diferencial de lesões periuretrais inclui prolapso da uretra, divertículo, carúncula uretral, quistos de Skene, Gartner, remanescente Mulleriano, de inclusão epitelial e congénito, ureterocelo ectópico, pólipo fibroso, neoplasia vaginal, carcinoma uretral e tumores do músculo liso5,12.

O tratamento cirúrgico é recomendado, com excisão local e completa da lesão. Foram descritos casos de ressecção transuretral do tumor em casos de leiomiomas intradiverticulares, também sem recorrências reportadas13. Geralmente, não ocorre recorrência ou transformação maligna destes tumores após o tratamento. Como complicações cirúrgicas, estão descritas incontinência urinária de esforço e fístulas uretrovaginais14,15. A incontinência urinária de esforço pode ser tratada de forma semelhante ao tratamento convencional desta patologia, embora seja recomendado um período de cerca de seis meses após a excisão do tumor, de forma a excluir recorrência da doença com realização de ressonância magnética nuclear, uretrocistoscopia e avaliação urodinâmica para confirmação do componente de esforço da incontinência urinária5.

 

CONCLUSÃO

Os leiomiomas da uretra e parauretrais são tumores benignos raros. O conhecimento da anatomia perineal e avaliação por ressonância magnética nuclear são muito importantes no diagnóstico e avaliação pré-operatória. O tratamento de escolha é a excisão tumoral completa, com bons resultados descritos na literatura.

 

REFERÊNCIAS

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