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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 4 - 14 Artigos

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http://www.dx.doi.org/1030928/2527-2039e-20181963

Relato de Caso

Tratamento cirúrgico de fratura bilateral de mandíbula atrófica

Surgical treatment in bilateral atrophic jaw fracture

Matheus Silvestre Minucci; Izabella Sol; Daniela Meneses Santos; Cristóvão Marcondes de Castro Rodrigues; Lair Mambrini Furtado; Jonas Dantas Batista

Universidade Federal de Uberlândia, Faculdade de Medicina, Departamento de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e Implantodontia, Uberlândia, MG, Brasil

Endereço para correspondência

Cristóvão Marcondes de Castro Rodrigues
E-mail: cristovao-marcondes@hotmail.com; cristovao-marcondes@gmail.com

Recebido em 25/07/2018
Aceito em 18/10/2018

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

A melhora da expectativa de vida nas últimas décadas levou a um aumento da população de idosos no Brasil e, consequentemente, trouxe um maior número de pacientes dessa faixa etária para o atendimento em diversas áreas da saúde. A exposição dessa população aos traumas, principalmente os craniofaciais, vem exigindo do cirurgião bucomaxilofacial uma maior atenção no que se refere ao tratamento adequado e à redução de fraturas associadas a rebordos maxilares atróficos. As fraturas de mandíbula atrófica representam uma pequena porcentagem dentre as fraturas de mandíbula e são casos de difícil tratamento. O objetivo deste trabalho é relatar o caso clínico de fratura bilateral de mandíbula atrófica em um paciente de 86 anos, vítima de queda da própria altura que foi tratado com fixação interna rígida por meio da instalação de placas e parafusos de titânio.

Palavras-chave: Mandíbula. Fixação Interna de Fraturas. Arcada Edêntula. Fraturas Mandibulares.

INTRODUÇÃO

Devido à longevidade crescente, os estilos de vida mais ativos e um crescimento na relação de idosos na porcentagem da população notam-se um aumento na frequência de pacientes geriátricos que apresentam trauma craniofacial1. Os principais agentes etiológicos das fraturas de mandíbula, observados nessa população, são os acidentes automobilísticos seguidos dos episódios de quedas e as agressões2.

As fraturas em mandíbulas atróficas são mais comumente encontradas em pacientes nessa faixa etária, devido à perda precoce dos elementos dentais. As fraturas bilaterais em mandíbulas atróficas são incomuns, com 1,8% de incidência, com prevalência no sexo feminino o que torna um desafio aos cirurgiões o tratamento dessas injúrias, visto que há um número limitado de casos relatados na literatura3,4.

Nestes pacientes, as alterações fisiológicas e anatômicas, inerentes da senilidade têm uma influência negativa sobre a reparação óssea. Fatores relacionados à atrofia mandibular, como a quantidade e qualidade ósseas, área reduzida de contato entre os segmentos fraturados, suprimento sanguíneo inadequado, além da alta incidência de alterações sistêmicas nestes pacientes, aumentam a complexidade do tratamento2.

O osso mandibular possui diversas classificações descritas na literatura, considerando mais diversas características tais como qualidade óssea, quantidade óssea remanescente, pontos anatômicos chaves e linhas de fragilidade, o que permite melhor planejamento e previsibilidade do tratamento cirúrgico empregado considerando diferentes características e possíveis limitações apresentadas pelo osso mandibular.

Este estudo tem por objetivo apresentar um caso de osteossíntese de fratura bilateral de mandíbula atrófica em paciente geriátrico.

 

RELATO DO CASO

Paciente J.A.O, sexo masculino, 86 anos de idade, encaminhado ao Serviço de Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilofacial do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, queixando-se de dor ao mastigar e dormência do lábio direito. Na anamnese paciente relatou ter sido vítima de queda da própria altura durante realização de exercícios físicos, negando perda de consciência ou vômito. A história médica pregressa revelou que o mesmo era portador de carcinoma intestinal e hiperplasia prostática benigna e referiu fazer uso de Losartana 25mg para tratamento de hipertensão arterial, negou tabagismo e etilismo. Considerando dados colhidos na anamnese paciente classificado com ASA II.

Ao exame clínico extraoral, observou-se edema em região de corpo de mandíbula direita e limitação de abertura bucal. Ao exame intraoral notou-se edentulismo total reabilitado apenas com prótese total superior, mucosas integras e coradas, ausência de equimose sublingual. Na palpação, um degrau ósseo presente na altura crista de rebordo alveolar região de pré-molares. Como hipótese de diagnóstico foi sugerida fratura de mandíbula. Diante dos achados clínicos foram solicitados exames de imagem tomografia computadorizada onde foi constatado, na reconstrução 3D, e no corte axial solução de continuidade óssea com deslocamento na região de corpo mandibular bilateral, confirmando a hipótese diagnóstica de fratura bilateral de mandíbula atrófica com deslocamento (Figuras1 e 2).

 


Figura 1. Reconstrução 3D de Tomografia Computadorizada.

 

 


Figura 2. Corte Axial de Tomografia Computadorizada.

 

O tratamento de escolha foi à redução cruenta das fraturas. Foram solicitados exames laboratoriais pré-operatórios os quais não apresentaram nenhuma alteração que contra indicasse a intervenção cirúrgica, desta maneira o paciente foi encaminhado ao centro cirúrgico para redução aberta das fraturas sob anestesia geral.

Paciente foi submetido intubação nasotraqueal, o acesso cirúrgico de escolha foi cervicotomia alta, para acesso amplo das linhas de fratura. O tecido periosteal foi cuidadosamente descolado expondo apenas área suficiente para colocação das placas para minimiza o prejuízo da vascularização na região. Após acesso as fraturas foram reduzidas e simplificadas por meio da fixação de miniplacas de do sistema 2.0 com parafusos monocorticais na região da base da mandíbula (Figura 3). Com as linhas de fraturas estabilizadas e contorno anatômico mandibular restabelecido, uma placa do sistema 2.4 com 13 furos foi modelada e fixada com parafusos bicorticais de 11mm (Figura 4). Procedeu-se com lavagem vigorosa com soro fisiológico 0,9% e o fechamento do acesso cirúrgico por meio de su-turas por planos, com fios monocryl® 4-0 no periósteo e plano muscular e o uso de fio nylon 5-0® para sutura em pele.

 


Figura 3. Redução e simplificação das Fraturas Mandibular com placas tipo load-sharing.

 

 


Figura 4. Fixação da placa tipo load-bearing.

 

O paciente recebeu alta após 24 horas com prescrição domiciliar de amoxicilina 500mg de 8h/8h por sete dias, dexametasona 4mg 24h/24h por três dias e dipirona sódica 500mg de 6h/6h por três dias. Também foram dadas orientações quanta a dieta e cuidados com a ferida cirúrgica. No controle clínico pós-operatório de uma semana observou-se equimose na região cervical, ausência de limitação de abertura bucal e ferida cirúrgica sem sinais de infecção ou deiscência. Após cinco meses de acompanhamento pós-operatório, foi realizada radiografia panorâmica para avaliação (Figura 5). Paciente não referia queixas e o exame de imagem não apresentou nenhuma alteração, desta maneira o paciente recebeu alta ambulatorial.

 


Figura 5. Radiografia Panorâmica de Mandíbula. Pós-Operatório de cinco meses.

 

DISCUSSÃO

O Brasil está passando por um processo de envelhecimento populacional rápido e intenso. As pessoas de 60 anos ou mais passarão de 6,3% da população total, em 1980, para 14% em 20251. Participação nas atividades cotidianas nos últimos anos, em virtude de melhorias nas condições de vida e da ampliação do acesso aos avanços da medicina, teve como consequência uma maior exposição dos idosos a agentes causadores de traumas, principalmente craniofaciais3.

A fratura mandibular é, dentre todas as fraturas faciais, a mais comum. Pode ser causada por traumatismos diretos ou indiretos e, várias condições predispõem à fratura tais como a atrofia mandibular e osteoporose5. As causas mais usuais de fraturas de mandíbula na população geriátrica são: desequilíbrio causado pela fraqueza muscular, desordem visual na marcha, tontura ou vertigem, patologias e uso crônico de medicações como antidepressivos, sedativos e hipnóticos3,6.

As condições de envelhecimento desses pacientes interferem diretamente no planejamento e intervenção cirúrgica nessas fraturas, visto que os pacientes idosos tendem a ter um ou mais problemas sistêmicos, tais como hipertensão, diabetes, osteoporose e neoplasias, o que consequentemente os submetem a polifarmácia pelo uso de anti-hipertensivos, bifosfonatos e moduladores imunológicos, requerendo avaliação pré-operatória cuidadosa tornando o tratamento destes pacientes um desafio para a equipe cirúrgica, uma vez que tais condições podem limitar ação cirúrgica planejada ao paciente7,8 .

Além disso, a redução do metabolismo, da capacidade de cicatrização e do fluxo sanguíneo nos idosos influencia diretamente no sucesso cirúrgico. Devido à redução da nutrição sanguínea da mandíbula atrófica fraturada, é fundamental que o periósteo seja preservado, levando em consideração que a própria fratura pode comprometer a vascularização mandibular e todo trauma ao osso irá produzir certa quantidade de dano vascular7,9. A princípio o aporte sanguíneo para o osso mandibular é proveniente de uma fonte central no caso a artéria alveolar inferior; já nas mandíbulas atróficas o aporte sanguíneo se baseia em fontes periféricas, como o periósteo e as inserções musculares10. Sendo então assim realizada a preservação do periósteo no presente caso, a fim de reduzir os riscos de necrose por má nutrição pós-operatória.

A presença do suprimento vascular reduzido, associado a uma baixa qualidade e altura óssea presente nas mandíbulas atróficas repercutem no processo de reparo da fratura. O nível de deslocamento da fratura impossibilita adotar um tratamento conservador por meio de goteira acrílica ou cerclagem utilizando as próprias próteses totais do paciente8. Assim, se fez necessário o uso de um sistema de placas e parafusos.

Um dos passos iniciais na redução dessas fraturas é sua simplificação com auxílio de placas de compartilhamento de carga, também conhecidas como placas do tipo load-sharing, as quais permitem estabilização dos segmentos fraturados, conferindo o restabelecendo do contorno anatômico mandibular e assim permitindo a adaptação de placas de reconstrução do tipo load-bearing5.

As mandíbulas atróficas necessitam de grande resistência da fixação, mesmo em pacientes com musculatura pobre e força muscular aparentemente reduzida. A diminuição da altura mandibular gerada pela atrofia altera a disposição das zonas de tensão, neutra e compressão, as quais se desenvolvem na mandíbula em decorrência da solicitação funcional, aproximando-as, devendo assim o sistema de fixação ser capaz de suportar as forças geradas e concentradas nessas áreas, sendo o sistema load-bearing o mais indicado para suportar tal carga1,3,5. Além disso, a fixação das fraturas poderia causar dano vascular, especialmente na instalação de parafusos bicorticais.

Levando em consideração a condição sistêmica, qualidade óssea, condição metabólica e trauma cirúrgico ao qual paciente é submetido para tratamento desse tipo de fratura, é de fundamental importância acompanhamento ambulatorial, de longo prazo como forma de controle de possíveis complicações como deiscências, exposição e/ou infecção do material de osteossíntese6,11.

 

REFERÊNCIAS

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8. Wittwer G, Adeyemo WL, Turhani D, Ploder O. Treatment of atrophic mandibular fractures based on the degree of atrophy experience with different plating systems: a retrospective study. J Oral Maxillofac Surg. 2006;64(2):230-4.

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