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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 4 - 14 Artigos

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http://www.dx.doi.org/1030928/2527-2039e-20181962

Relato de Caso

Fratura isolada do troquino: uma patologia rara

Isolated fracture of lesser tuberosity of the humerus: a rare condition

Marta Santos Silva; Ana Ribau; Luís Barros; João Esteves; Pedro Serrano; Pedro Cardoso

Centro Hospitalar do Porto, Serviço de Ortopedia, Porto, Porto, Portugal

Endereço para correspondência

Marta Santos Silva
E-mail: marta_sss_@hotmail.com; martasantossilva87@gmail.com

Recebido em 25/07/2018
Aceito em 18/10/2018

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

As fraturas isoladas do troquino são raras, subdiagnosticadas e o seu tratamento é ainda envolto em controvérsia. Este caso relata o diagnóstico, opções terapêuticas e resultado clínico e funcional de um homem de 30 anos com fratura isolada do troquino, submetido à osteossíntese com parafusos. O caso apresenta um excelente resultado clínico, funcional e radiológico.

Palavras-chave: Fraturas do Ombro. Fixação Interna de Fraturas. Úmero. Traumatologia. Medicina Esportiva.

INTRODUÇÃO

As fraturas da extremidade proximal do úmero representam 5% das fraturas do úmero, sendo que destas, apenas 2% são fraturas isoladas do troquino1. Assim, estas fraturas são extremamente raras e ocorrem apenas em cinco por 1.000.000 pessoas2.

As fraturas isoladas do troquino, frequentemente, não são diagnosticadas na primeira avaliação, quer pela sobreposição existente na radiografia convencional, quer por serem confundidas com corpos livres articulares ou calcificações da coifa, dado se apresentar como fragmentos pequenos e cominutivos3.

Pela sua raridade não existem protocolos de tratamento bem determinados. Este trabalho tem como objetivo descrever um caso clínico de fratura isolada do troquino tratado cirurgicamente e com um resultado funcional favorável.

 

RELATO DO CASO

Apresenta-se um caso de um homem de 30 anos, jogador de voleibol, com fratura isolada por avulsão, do troquino esquerdo. Recorreu ao serviço de urgência após queda da própria altura, durante a atividade desportiva, com queixa de omalgia esquerda. Ao exame objetivo, de salientar, dor e limitação da rotação interna com pulsos presentes e sensibilidade mantida. O diagnóstico foi obtido através de radiografias convencionais do ombro (Figura 1), com melhor caracterização da fratura por tomografia computorizada (Figura 2). O paciente foi submetido a tratamento cirúrgico, redução aberta e fixação do fragmento com dois parafusos (Figura 3), sem intercorrências. No pós-operatório não apresentava lesões neurovasculares. A fisioterapia passiva foi iniciada no quarto dia pós-operatório. Retomou as atividades de vida diária à quarta semana e a atividade desportiva ao terceiro mês pós-operatório.

 


Figura 1. Radiografia simples, realizada no ser-viço de urgência.

 

 


Figura 2. Tomografia axial computorizada, reali-zada no serviço de urgência.

 

 


Figura 3. Resultado radiográfico final.

 

Os resultados clínicos finais foram avaliados de acordo com a rotação externa e força muscular do ombro. Aos 12 meses de follow-up encontra-se sem dor e com mobilidade e força muscular idênticas ao ombro contralateral (Figura 4); pratica a atividade desportiva sem limitações.

 


Figura 4. Resultado clínico final.

 

DISCUSSÃO

O troquino é a pequena tuberosidade do úmero proximal, onde se insere o músculo subescapular, que é uma das estruturas responsáveis pela rotação interna e adução do ombro4.

De acordo com a literatura, o mecanismo de lesão mais comum é o trauma indireto, com forças de tração exercidas pelo ligamento gleno-umeral superior e músculo subescapular, num ombro em hiperextensão, rotação externa e abdução. Contudo outros mecanismos também estão descritos: trauma direto ou contração muscular súbita4. O diagnóstico implica um elevado grau de suspeição, uma vez que se trata de uma fratura pouco frequente e muitas vezes no estudo radiológico não são diagnosticadas ou são confundidas com outras patologias (tendinopatia calcificante do ombro ou lesão de Bankart ósseo). Os achados mais comuns ao exame físico são a dor à palpação do troquino e aumento da mesma com a rotação externa, bem como a limitação da rotação interna e um teste lift off positivo5,6.

Nas crianças deve-se excluir a fratura de um osteocondroma da metáfise proximal do úmero. Devem ser realizadas radiografias anteroposterior e axilar além de tomografia axial computorizada para melhor caracterização do fragmento avulsionado e planeamento cirúrgico7,8,9. O tratamento pode ser conservador ou cirúrgico, sendo que o conservador parece estar reservado a casos específicos em que a avulsão é incompleta. As opções cirúrgicas descritas incluem excisão do fragmento (quando é de tamanho diminuto ou muito cominutivo), complementada pela reconstituição do subescapular ou redução cirúrgica aberta ou artroscópica e fixação interna com parafuso8. Sempre que o deslocamento do fragmento é > 5mm ou > 45º de angulação, o tratamento cirúrgico deve ser a opção, para evitar que a pseudartrose ou o impingment antero-medial limitem a mobilidade e força muscular do membro afetado e causem dor crónica2,9. O caso clínico apresentado ilustra uma fratura isolada do troquino que se traduz como sendo uma patologia extremamente rara na atualidade.

Os autores pretendem com este trabalho aumentar a suspeição clínica para estas fraturas. A abordagem escolhida possibilitou um excelente resultado em termos clínicos, funcionais e radiológicos, pelo que se recomenda o uso desta técnica em casos semelhantes.

 

REFERÊNCIAS

1. Nikolaou VS, Chytas D, Tyrpenou E, Babis GC. Two-level reconstruction of isolated fracture of the lesser tuberosity of the humerus. World J Clin Cases. 2014;2(6):219-23.

2. Robinson C M, Teoh KH, Baker A, Bell L. Fractures of the lesser tuberosity of the humerus. J Bone Joint Surg Am. 2009;91(3):512-20.

3. Pace A, Ribbans W, Kim JH. Isolated lesser tuberosity fracture of the humerus. Orthopedics. 2008;3(1):94.

4. Goeminne S, Debeer P. The natural evolution of neglected lesser tuberosity fractures in skeletally immature patients. J Shoulder Elbow Surg. 2012;21(8):e6-e11.

5. Vezeridis PS, Bae DS, Kocher MS, Kramer DE, Yen YM, Waters PM. Surgical treatment for avulsion injuries of the humeral lesser tuberosity apophysis in adolescents. J Bone Joint Surg Am. 2011;93(20):1882-8.

6. Vavken P, Bae DS, Waters PM, Flutie B, Kramer DE. Treating subscapularis and lesser tuberosity avulsion injuries in skeletally immature patients: a systematic review. Arthroscopy. 2016;32(5): 919-28.

7. Wu GB, Wang SQ, Wen SW, Yu GR. Isolated avulsion fractures of lesser tuberosity humerus: a case report and review of the literature. Int J Clin Exp Med. 2014;7(3):780-4.

8. Tosun B, Kesemenli C. Isolated avulsion fracture of lesser tuberosity of the humerus: review of the literature and report of two cases. Int J Shoulder Surg. 2011;5(2):50-3.

9. Hung LH, Chung KY, Tang N, Leung KS. Isolated avulsion fracture of the lesser tuberosity of the humerus: case report and literature review. J Orthop Trauma Rehabil. 2012;16:78-81.

 

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