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RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 3 - 11 Artigos

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http://www.dx.doi.org/1030928/2527-2039e-20181904

Relato de Caso

Hérnia de Amyand à esquerda: abordagem e propedêutica

Left Amyand hernia: approach and propaedeutic

Carlos Magno Queiroz da Cunha1; José Walter Feitosa Gomes, ACBC-CE2; Moisés Francisco da Cruz Neto2; Octavio Luis Alves da Silva2; Bruno Tigre de Arruda Leitão, ACBC-CE1; Paulo Marcos Lopes2

1. Universidade de Fortaleza, Faculdade de Medicina, Fortaleza, CE, Brasil
2. Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar, Serviço de Cirurgia Geral, Fortaleza, CE, Brasil

Endereço para correspondência

José Walter Feitosa Gomes
E-mail: jwalterfeitosa@yahoo.com.br

Recebido em 03/05/2018
Aceito em 25/07/2018

Fonte de financiamento: Não

Conflito de interesses: Não

Resumo

Descrita pela primeira vez em 1735 e caracterizada pelo achado do apêndice cecal dentro do saco herniário, a Hérnia de Amyand é rara, possuindo incidência de 0,5% a 1% e 0,1% se ocorrer apendicite concomitantemente. O diagnóstico desta afecção é na maioria das vezes realizado no intraoperatório e a sua classificação e manejo são descritas na literatura dependendo do grau de acometimento do apêndice. Apresentamos aqui relato de caso de paciente masculino de 44 anos que iria se submeter a correção eletiva de hernioplastia inguinal a esquerda, porém um dia antes da data da cirurgia apresentou dor escrotal e encarceramento da referida hérnia, onde durante a cirurgia foi identificado apêndice cecal inflamado dentro do saco herniário.

Palavras-chave: Hérnia Inguinal. Apendicite. Herniorrafia. Doenças Raras.

INTRODUÇÃO

Descrita em 1735 pelo cirurgião francês Claudius Amyand, a hérnia de Amyand é caracterizada pelo achado do apêndice, inflamado ou não, dentro do saco herniário inguinal. Esta afecção, apesar de contemplar duas entidades clínicas frequentes, possui baixa incidência que varia de 0,5% a 1% e torna-se ainda mais rara (0,1%) em casos com apendicite aguda1-3.

Associado a essa baixa frequência, os achados clínicos e semiológicos são variados e irão depender da apresentação da hérnia (sem alterações, encarcerada ou estrangulada) e do apêndice (sem alterações, inflamado, perfurado ou gangrenoso). Desse modo, o diagnóstico clínico pré-operatório é quase impossível, sendo necessário ultrassom (US) ou tomografia computadorizada (TC) para levar a suspeição dessa afecção3-5.

Devido a esse conjunto de fatores que propiciam a difícil suspeição e diagnós-

tico dessa patologia, bem como a importân-cia do médico saber como manejar o paci-ente, apresentamos aqui, relato de uma hérnia de Amyand à esquerda com a pre-sença de apêndice inflamado no saco her-niário durante procedimento eletivo.

RELATO DO CASO

Homem, 44 anos, desempregado, procurou ambulatório de Cirurgia Geral queixando-se de abaulamento em região inguinal esquerda há um ano, associado à história de dor local há seis meses e história prévia de hernioplastia a direita há dois anos. Foi solicitado exames pré-operatórios, sendo marcada a cirurgia eletiva de hernioplastia. Porém, na admissão do paciente, um dia antes ao procedimento, relatou dor escrotal leve e dificuldade de redução do saco herniário. O abdome estava flácido, indolor à palpação e sem sinais de irritação peritoneal.

No momento da cirurgia optou-se pela realização da inguinotomia antes da redução da hérnia inguinal, pois o paciente apresentava eritema escrotal. Durante o transoperatório foi identificado parte do ceco e o apêndice cecal eritematoso como conteúdo do saco herniário (Figura 1). Desse modo, optou-se pela apendicectomia, redução dos restantes do conteúdo do saco e herniorrafia pela técnica de Shouldice (Figura 2). O paciente evoluiu sem complicações recebendo alta no primeiro dia do pós-operatório. No retorno ambulatorial programado, o paciente não relatou queixas e trouxe resultado da biópsia do apêndice, apontando apendicite aguda como diagnóstico histopatológico.

 


Figura 1. Conteúdo do saco herniário.

 

 


Figura 2. Aspecto final da herniorrafia.

 

DISCUSSÃO

A fisiopatologia da apendicite aguda no saco herniário é explicada pela isquemia do apêndice cecal devido à compressão realizada pelo anel herniário. Porém, como esse fato provavelmente só ocorreu um dia antes do procedimento realizado, não gerou sintomas mais típicos de apendicite aguda, como anorexia, náuseas e vômitos6.

Outro fator confundidor do diagnóstico de apendicite é o fato que, no caso apresentado, observa-se o tipo mais incomum de hérnia de Amyand, quando esta se apresenta do lado esquerdo, fato que só ocorre quando há um ceco flexível ou uma má rotação dele3.

Em relação ao tratamento, existe discordância na literatura quanto à aposição ou não de tela, porém, adotamos em nossa conduta a difundida classificação de Losanoff e Basson's, como mostra o quadro 17,8.

 

 

Desse modo, nosso paciente foi classificado como hérnia de Amyand tipo 2, na qual o tratamento proposto é apendicectomia e correção da hérnia sem uso de prótese (tela)7. Concordamos com essa literatura, pois a inflamação gerada pode contribuir com a formação de aderências, fístulas e até recidivas da hérnia8.

Caso houvesse demora no tratamento, a história natural da apendicite aguda pode incluir perfuração e formação de abscessos (classificação 3 e 4 de Losanoff e Basson's). Também são relatados casos de fascite necrotizante e óbito3. Portanto, o tratamento imediato de tal afecção foi fator importante na abordagem desse paciente, contribuindo para sua rápida recuperação pós-operatória.

 

REFERÊNCIAS

1. Kose E, Sisik A, Hasbahceci M. Mesh inguinal hernia repair and appendectomy in the treatment of Amyand's hernia with non-inflamed appendices. Surg Res Pract. 2017;2017:7696385.

2. Fonseca-Neto OC, Lucena RC, Lacerda CM. Amyand's hernia: inguinal hernia with acute appendicitis. Arq Bras Cir Dig. 2014;27(4):309-10.

3. Michalinos A, Moris D, Vernadakis S. Amyand's hernia: a review. Am J Surg. 2014;207(6):989-95.

4. Cunha HAV, Sugahara RD, Castilho MV. Hérnia de Amyand. Rev Col Bras Cir. 2009;36(3):279-80.

5. Salles VJA, Bassi DG, Speranzini MB. Hérnia de Amyand. Rev Col Bras Cir. 2006;3(5):339-40.

6. Cunha CMQ, Troiani Neto G, Brasil AC, Menezes FJC, Brilhante AVM, Reinaldo RRP. Correlation of clinical data and the Alvarado's Score as predictors of acute appendicitis. J Coloproctol (Rio J). 2018;38(2):95-8.

7. Losanoff JE, Basson MD. Amyand hernia: a classification to improve management. Hernia. 2008;12(3):325-6.

8. Crouzillard BNS, Hernani BL, Martins RK, Silva RA, Pacheco Júnior AM, Moricz A, et al. Hérnia de Amyand: como conduzir um achado incidental? Rev Col Bras Cir. 2017;(3):1-4.

 

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