RelatosCBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Fascículo: 3 - 17 Artigos

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Relato de Caso

Volvo de íleo devido a aderência intra-abdominal em paciente sem cirurgia prévia

Ileum volvolus due to intra abdominal adhesion in a patient without prior surgery

Carlos Magno Queiroz da Cunha1; Giovanni Troianni Neto1; Rommel Reno Porcino Reinaldo2; Everardo Leite Gonçalves2; André Costa Matos Lima2; Francisco Julimar Correia de Menezes1

1. Universidade de Fortaleza - UNIFOR, Liga de Cirurgia Geral, Fortaleza, CE, Brasil
2. Hospital Distrital Evandro Ayres de Moura, Fortaleza, CE, Brasil

Endereço para correspondência

André Costa Matos Lima
E-mail: andre.costa@gmail.com

Resumo

Volvo de intestino delgado é uma apresentação rara e 80% dos casos ocorrem em lactentes decorrente de alteração na rotação intestinal. Em adultos, essa afecção é relacionada a aderências intra-abdominais após um procedimento cirúrgico prévio e raramente, ocorre na ausência dessa condição prévia. Relatamos o caso de um homem de 39 anos de idade com quadro de abdome agudo obstrutivo por volvo de íleo não relacionado à má rotação intestinal ou cirurgias prévias.

Palavras-chave: Volvo Intestinal. Obstrução Intestinal. Abdome Agudo.

INTRODUÇÃO

Volvos intestinais são uma importante causa de abdome agudo obstrutivo, surgindo em decorrência de torção de uma alça intestinal ao redor do seu ponto de fixação mesentérica. Apresentam-se com quadro inespecífico de dor, náuseas, vômitos e sintomas obstrutivos, podendo cursar com isquemia, necrose e perfuração, tratando-se de uma emergência cirúrgica1-4. É mais comum no cólon sigmoide (89%), especialmente quando está cheio de fezes, e em pacientes com mais de 50 anos3-5.

O volvo de intestino delgado é raro e se apresenta 80% das vezes em neonatos, decorrente de má rotação intestinal. Sua ocorrência em outras faixas etárias é relacionada principalmente à cirurgia prévia, devido à torção em torno de uma aderência formada, raramente ocorrendo na ausência desses fatores5-7.

O relato a seguir tem como objetivo expor o caso de um paciente de 39 anos com volvo ileal e sem histórico de má rotação ou cirurgia prévia.

 

RELATO DO CASO

Paciente masculino, 39 anos, com queixas de dor abdominal há dois dias, em pontada, de forte intensidade e que há um dia se irradiou para todo o abdome, associada a náuseas, vômitos, hiporexia e constipação. O paciente encontrava-se em posição antálgica com dificuldade de movimentação devido à dor difusa. Ao exame físico, apresentava mau estado geral, pulso de 122 bpm, frequência respiratória de 30 ipm e febril. Abdome globoso, distendido, ruídos hidroaéreos aumentados, ausência de sons metálicos. Dor à palpação superficial e percussão, com defesa abdominal. Paciente negou cirurgia abdominal prévia. Radiografia simples com distensão atípica de intestino delgado e ausência de gás na ampola retal. Hemograma com leucocitose (17.800/mm³) e discreta anemia.

O paciente foi submetido à laparotomia exploratória de emergência, tendo sido observado volvo de intestino delgado decorrente de aderência intra-abdominal (Figura 1).

 


Figura 1. Aderência em base do volvo.

 

Havia necrose de íleo proximal (Figura 2), tendo sido necessária a ressecção de 50 cm de alça e anastomose primária. Revisão da cavidade abdominal não revelou outras anormalidades. O paciente teve alta no sexto dia de pósoperatório.

 


Figura 2. Íleo necrosado.

 

DISCUSSÃO

O volvo ileal forma-se a partir da torção do segmento intestinal sobre si mesmo ao longo dos vasos mesentéricos superiores, ocasionando sofrimento de alça e elevado potencial de necrose em um curto período de tempo7,8. A tomografia computadorizada apresenta alta especificidade para volvo intestinal8,9, mas não foi possível realizá-la neste caso, devido à inacessibilidade no serviço hospitalar e a instabilidade do paciente. Assim, o paciente foi operado com os achados inespecíficos de obstrução intestinal nos exames complementares já citados.

Diante dos achados e em associação com o quadro clínico do paciente, a opção pela abordagem cirúrgica de urgência foi a melhor conduta a ser tomada, evidenciando no ato cirúrgico o volvo ileal por aderência, mesmo na ausência de má rotação ou cirurgia prévia. A escolha de realizar ou não fixação do mesentério apresenta eficácia questionável e alto risco, não garantindo proteção contra recidivas, ocasionando muitas vezes reoperações de alto risco ao paciente8-10.

A causa da torção ileal do caso em questão e da maioria dos abdomens agudos obstrutivos são as aderências peritoneais4,10. Essas conexões patológicas entre superfícies dentro das cavidades corporais podem ser constituídas por lâminas de tecido conjuntivo, feixes vásculo-nervosos ou pelo contato direto entre a superfície de dois órgãos, estando intimamente relacionadas às complicações pós-operatórias, sendo mais prevalentes na terceira semana10. Com altos índices de morbimortalidade, as aderências podem reincidir em até 53%, chegando até a 85% se houver nova cirurgia4,8,10. Apesar de intensa relação com cirurgias abdominais (até 93% das laparotomias) e com obstrução de delgado prévia (70% das reinternações), podem ocorrer em pacientes sem cirurgias ou obstruções prévias (10%), como no paciente em questão, formando-se a partir de resposta inflamatória e fibrinolítica a infecções, irritação, trauma, entre outras possíveis causas9,10.

 

REFERÊNCIAS

1. Macedo M, Velhote MC. Volvo de intestino delgado após apendicectomia laparoscópica. Einstein. 2012;10(1): 103-4.

2. Wales L, Tysome J, Lim A, Moser S, Tait P, Navarra, G. Gastrointestinal: Cecal volvulus. J Gastroenterol Hepatol. 2004;19(2): 225.

3. Vidal MAN. Obstrução intestinal: causas e condutas. Rev Bras Coloproct. 2005;25:332-8.

4. Basilio PC. Obstrução intestinal por aderências: utilização de membrana bio-reabsorvível (hialuronato de sódio + carboximetilcelulose) seprafilm® na profilaxia de complicações em reoperações abdominopélvicas. Rev Bras Coloproct. 2003;23(3):168-71.

5. Cuadra AS, Khalife ME, Char DJ, Wax MR, Halpern D. Intestinal obstruction from midgut volvulus after laparoscopic appendectomy. Surg Endosc. 2002; 16(1):215.

6. Silva JB, Costa DR, Menezes FJC, Tavares JM, Marques AG, Escalante RD. Perfil epidemiológico e morbimortalidade dos pacientes submetidos à reconstrução de trânsito intestinal: experiência de um centro secundário do Nordeste Brasileiro. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2010;23(3):150-3.

7. Accetta I, Duarte AJV, Silva Júnior CA, Accetta P, Maia AM, Accetta AF. Volvo crônico de intestino delgado. - Relato de caso. Rev Bras Coloproct. 2002;23 (4):302-4.

8. Lassandro F, Giovine S, Pinto A, De Lutio Di Castelguidone E, Sacco M, Scaglione M, et al. [Small bowell volvulus - combined radiological findings]. Radiol Med. 2001;102(1-2):43-7. Italian.

9. Blake MP, Mendelson RM. The whirl sign: a non specific finding of mesenteric rotation. Australas Radiol. 1996;40(2):136-9.

10. Araújo SEA, Caravatto PPP, Chang AJBA, Campos FGCM, Sousa M. Impacto da vídeocirurgia na prevenção de aderências. Rev Bras Colo-Proctol. 2006;26(2):208-16.

 

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